
João Inácio da Silva Filho e a representação do sistema de drenagem criado por Bartholomeu
Bonecos de brinquedo viram personagens do início do século 18, pedaços de madeira servem como estrutura de embarcações antigas, panos tomam a forma de velas içadas e um engenheiro se transforma em artista plástico. A casa de João Inácio da Silva Filho é o depósito de várias maquetes que saem dali para participar de exposições que apresentam aos visitantes um pouco da história de um gênio brasileiro, Bartholomeu Lourenço de Gusmão.
Professor de Engenharia da Unisanta, em Santos (SP), Silva Filho se entrega nas horas vagas a um hobby que nasceu da curiosidade. Nos livros escolares da infância e da adolescência, conheceu Gusmão, mais precisamente a tal Machina Volante. “Eu li nos livros escolares que Bartholomeu tinha inventado uma máquina de voar, mas não havia detalhes sobre ela. Como a gente tinha poucas informações, comecei a pesquisar a vida deste gênio e descobri vários outros inventos e pesquisas que ele fez no decorrer da vida”, relembra.
Em outubro, a exposição idealizada por Silva Filho fará parte dos festejos dos 300 anos da invenção do balão, em local e data a serem brevemente confirmadas. Aliás, uma das representações é sobre o dia 8 de agosto de 1709. Denominada Espanto na corte, a maquete mostra Bartholomeu apresentando à corte portuguesa o aeróstato. Um balão de arame e papel saindo das mãos do inventor graças ao ar aquecido por uma vela, um marco da conquista dos céus pela humanidade.
Uma das principais invenções de Bartholomeu, a terceira, segundo Silva Filho, se deu em 1710. Três inovadores sistemas de automação que aproveitavam o movimento da embarcação para acionar as bombas de drenagem dos porões - projeto considerado avançado para a época - foram utilizados nas naus de Portugal, que estava em guerra com a Espanha. Antes eram os marinheiros que faziam o trabalho, o que custava muitas vidas quando o porão enchia, além da decomposição das mercadorias ali transportadas. Desenhos e documentos sobre este invento foram descobertos mais tarde nos arquivos do Vaticano, mostrando que o padre era observado com desconfiança pela Inquisição. Desconfiança que chegou a ponto de obrigá-lo a se refugiar na Holanda, onde foi um dos pioneiros, segundo Silva Filho, a utilizar a energia solar para assar alimentos. Lá produzia e vendia remédios para sobreviver.
Criptografia é o nome de uma maquete que mostra Bartholomeu sentado à uma mesa de escritório. O rei de Portugal utilizou a inteligência de Gusmão para decifrar os códigos secretos das correspondências trocadas entre as cortes europeias. Assim, o monarca sabia antecipadamente o que estava para acontecer. Bartholomeu não só decodificava o que os inimigos escreviam em suposto segredo, mas também criou um novo sistema de códigos para Portugal.
Bartholomeu emprestou sua genialidade também à agricultura. Percebeu que os agricultores portugueses perdiam muitas batatas após a colheita devido ao mau armazenamento do produto. Ele então elaborou um método que eliminou as perdas e permitiu que os camponeses lucrassem com a nova forma de conservação. O método foi registrado na Academia de Lisboa.
Uma das obras de Silva Filho ganhou a condição de exposição permanente. Trata-se da maquete que retrata a Vila de Santos na época do nascimento de Bartholomeu, no final do século 17. Ela faz parte do arquivo da Fundação Arquivo e Memória de Santos, localizada no Outeiro de Santa Catarina, na rua Visconde do Rio Branco, 48, no Centro Histórico. O Outeiro é o marco da fundação de Santos, em torno dele foram construídas as primeiras casas, em 1546.
Lá, Silva Filho consumou a simbiose entre a engenharia e a arte que aparece claramente nas linhas precisas e estéticas de suas obras. “Nós juntamos tecnologia e História. Estamos usando um protocolo diferente para fazer a sincronização dos leds. Vem o som, vem a imagem e os leds vão acendendo sobre a maquete de modo sincronizado. É uma tecnologia nova que se junta à História representada pela maquete”, explica. Uma apresentação de 13 minutos leva os visitantes a uma viagem no tempo.
Em outubro, além da exposição prevista como parte das comemorações dos 300 anos do balão, Silva Filho pretende lançar o livro O Enigma de Bartholomeu, um romance histórico que mistura ficção e realidade de aproximadamente 400 páginas sobre as invenções do padre. Este será o segundo livro do autor sobre Bartholomeu. Em 2006 ele lançou pela Editora Paralogika O Jesuíta e o Menino – Contos & Cantos da Vila do Porto de Santos, que fala da infância do inventor santista. O jesuíta do romance é Alexandre de Gusmão, amigo do pai de Bartholomeu, que levou o jovem santista à Bahia para estudar e foi fundamental na carreira científica de Bartholomeu.
As miniaturas começaram a ser criadas em 1998, 21 anos depois da chegada de Silva Filho a Santos. Nascido em 1953, em Marabá Paulista, mais precisamente numa cidade chamada Areia Dourada, que hoje já não existe mais, sempre deu asas à veia artística. Já produziu histórias em quadrinhos e cartuns, antes de se dedicar a reproduzir as invenções de Gusmão. Ontem (25), Silva Filho viajou à cidade do Porto, em Portugal, onde vai cumprir mais alguns créditos do curso de pós-doutorado em Sistemas Digitais.